modos
 
Flavio Cavalcante, um famoso apresentador de televisão dos anos 60, quando a TV ainda tinha aquele ar blasé do preto e branco, fez uma peculiar modinha, cujo nome é “Manias”.
 
Pouco ouço a música nas rádios, mas a canção é uma pérola. Quem não tem manias?
 
Eu tenho a mania de entrar nas lojas que vendem aparelhos de TV e ficar assistindo ao filme que está sendo rodado no vídeo cassete. Nem que eu já tenha assistido ele antes. Parece-me que na loja tem um gosto diferente. Trabalho me dá para eu sair da loja, e se passo em outra loja com televisões passando filmes, a coisa começa de novo.
 
Minha esposa, quando está comigo, fica a me puxar pelo braço. Diz que isto é coisa de caboclo que parece nunca ter visto televisão. Eu retruco que não há problema algum ser caboclo, e que, no fundo, o Nilson Chaves se referia a mim quando cantou que era um caipira de gravata e sapato.
 
Certo dia eu estava no mais pleno exercício da minha mania de telespectador de loja, quando, não mais que de repente, uma simpática moça, com um simpático sorriso, ofereceu-me uma cadeira. Não sei se ela estava querendo dizer algo e usou a cadeira como eufemismo. O certo é que eu sentei e acabei de ver o filme: aquele eu ainda não havia assistido.
 
Tenho também a mania de caminhar pela rua cantando. Quando saio por aí contra o vento, a imitar o finado Nelson Gonçalves, as pessoas que passam olham e fitam querendo ver em mim alguma característica de louco, que é para poder tomar distância, mas como acham que não passa de mania – não tenho cara de doido, acho – acabam achando graça: a minha loucura não passa daquela normal, que todos têm.
 
Certo dia eu ia ali pela Gentil, próximo ao Colégio Moderno. Bateu a doidice e eu soltei a voz. Quando, lá pela terceira música, eu ataquei de Sergio Endrigo, com Canzone per te, notei uns passos constantes atrás dos meus e uns risinhos marotos.
 
Virei e mirei: duas mocinhas e dois rapazolas, com a presença de espírito que só quem mantém o coração jovem consegue ter, bateram palmas e gargalharam. Eu agradeci, disse que não precisava tanto, e segui a viagem, caminhando e cantado e seguindo a canção.
 
Outra mania que eu tenho é a de querer endireitar todos os quadros que eu vejo tortos nas paredes e, nas viagens, levar sempre uma caixa de ferramentas para reparar tudo que está fora de ordem no quarto dos hotéis.
 
Acho, também, que sou capaz de consertar qualquer eletrodoméstico com defeito. Com certeza, sei desmontar até disco voador, o problema é montar de novo.
 
Todavia, continuo na mais firme crença de que se eu conseguisse montar o que desmonto, eu poderia consertar o que desmontei. As vezes dá certo e eu acabo tendo sucesso, mas em 60% dos meus casos de técnico em eletrodomésticos, eu tenho que comprar um novo, pois nem mesmo a fábrica conseguiria saber o que eu fiz com o que deu problema.
 
Tenho também, desde que ele assumiu o poder, a mania de falar mal do FHC. Quando ele se reelegeu eu reelegi a minha mania de falar mal dele. Eu adoraria que ele fosse presidente pela terceira vez. É tão bom falar mal do FHC.
 
Ouça “Manias”, com Dolores Duran: